terça-feira, 15 de setembro de 2026

JORNAL CONVERSA INFORMAL DE SETEMBRO DE 2026











ELEIÇÕES NO DF: ENTRE A MÁQUINA PÚBLICA E OS MILHÕES, ONDE FICA O CANDIDATO DO POVO?”

 


Campanha marcada por excesso de propaganda, estruturas milionárias, candidatos sem história de atuação social e questionamentos sobre o uso da máquina pública expõe uma disputa cada vez mais desigual no Distrito Federal


As eleições de 2026 no Distrito Federal deveriam representar o momento em que a população compara histórias, propostas, capacidade, caráter e compromisso com a sociedade para decidir quem merece representá-la.


Mas o cenário que se vê nas ruas parece cada vez mais distante disso.


São milhares de candidatos disputando os mais diversos cargos. A quantidade, por si só, faz parte da democracia. O problema começa quando, em meio a tantos nomes, propostas concretas, histórico de luta pela população e serviços efetivamente prestados à sociedade parecem perder espaço para uma verdadeira guerra de estruturas, dinheiro, publicidade e ocupação das ruas.


Em diversos pontos do Distrito Federal, a campanha virou uma disputa visual e sonora. Wind banners espalhados pelas vias, bandeiras por todos os lados, equipes numerosas em feiras e locais de grande circulação, carros, eventos, festas, fogos de artifício e verdadeiras operações de marketing político.


Ter recursos e fazer propaganda dentro da lei é legítimo.


A pergunta é outra: em que momento a eleição deixou de ser uma disputa de ideias para se transformar em uma demonstração de poder econômico e de estrutura?


DINHEIRO NÃO PODE VALER MAIS QUE HISTÓRIA


Outro fenômeno chama atenção: candidatos novos chegando à política com estruturas milionárias, alguns pertencentes a famílias economicamente poderosas do Distrito Federal e capazes de gastar cifras que estão completamente fora da realidade de um candidato comum.


Novamente, ser rico não é crime, tampouco pode ser motivo para impedir alguém de disputar uma eleição.


O problema é a desigualdade prática da disputa.


De um lado, candidatos com dinheiro para grandes estruturas, equipes numerosas, publicidade e presença maciça nas ruas.


Do outro, cidadãos vindos das comunidades, lideranças que passaram décadas lutando por saúde, educação, regularização, infraestrutura, segurança e direitos da população, mas que não possuem milhões para transformar cada esquina em uma vitrine eleitoral.


Muitos têm história, trabalho prestado, honestidade e ficha limpa, mas entram na disputa em enorme desvantagem financeira.


E justamente essas pessoas poderiam representar a renovação que tanto se cobra da política.


Se somente quem possui dinheiro ou estrutura conseguir ser visto, que renovação política teremos?


E A MÁQUINA PÚBLICA?


Existe ainda uma questão mais grave e que precisa ser acompanhada de perto pelos órgãos de fiscalização: a possível utilização política da estrutura pública durante o período eleitoral.


Deputados que disputam a reeleição e integram a base governista possuem influência política, relações dentro da administração pública e proximidade com estruturas do governo.


É necessário fiscalizar rigorosamente se administrações regionais, secretarias, cargos comissionados, contratos, nomeações e demais estruturas públicas estão sendo utilizados exclusivamente em benefício da população ou se, direta ou indiretamente, acabam servindo para fortalecer projetos eleitorais.


Não se pode afirmar, sem provas individualizadas, que todo servidor comissionado seja cabo eleitoral ou que toda indicação política represente compra de votos.


Mas também não se pode fingir que esse risco não existe.


Cargo público não pode virar moeda eleitoral. Secretaria não pode virar comitê político. Administração Regional não pode pertencer a deputado. E dinheiro público jamais pode financiar, direta ou indiretamente, projeto de reeleição.


Se houver utilização eleitoral dessas estruturas, estaremos diante de algo muito mais grave do que uma simples vantagem de campanha: estaremos falando da quebra da igualdade entre os candidatos e do uso de patrimônio que pertence a toda a sociedade.


QUEM FISCALIZA OS PODEROSOS?


Talvez essa seja uma das maiores inquietações desta eleição.


Nunca foi tão necessário perguntar:


Quem está fiscalizando?


Quem acompanha a utilização da máquina pública?


Quem verifica possíveis abusos de poder político e econômico?


Quem acompanha a relação entre ocupantes de cargos públicos e campanhas eleitorais?


Quem fiscaliza gastos, estruturas gigantescas e eventuais irregularidades?


A Justiça Eleitoral, o Ministério Público Eleitoral e os demais órgãos competentes possuem instrumentos para atuar. Mas a fiscalização precisa ser percebida nas ruas e, sobretudo, precisa alcançar todos igualmente.


Porque uma eleição não é verdadeiramente democrática apenas porque qualquer cidadão pode registrar uma candidatura.


Ela precisa oferecer condições minimamente equilibradas para que as pessoas possam disputar o voto.


PODER PELO PODER


O Distrito Federal não precisa simplesmente trocar nomes.


Precisa mudar práticas.


Não precisamos de milhares de candidatos apenas querendo ocupar uma cadeira, conquistar poder, salário, influência ou espaço político.


Precisamos perguntar a cada candidato:


Onde você estava antes da eleição?


O que você fez pela sociedade quando não precisava de votos?


Que luta enfrentou?


Que problema ajudou a resolver?


Qual resultado concreto deixou para a população?


E quais são suas propostas para os próximos quatro anos?


Porque aparecer durante alguns meses, espalhar milhares de bandeiras, contratar equipes, fazer festas, produzir vídeos e investir fortunas em publicidade não cria história.


História é construída antes da eleição.


A POLÍTICA NÃO PODE SER EXCLUSIVA 

DOS RICOS E DOS DONOS DA MÁQUINA


A democracia começa a adoecer quando uma pessoa comum, mesmo tendo décadas de serviços prestados, percebe que precisa enfrentar simultaneamente candidatos milionários e políticos que já possuem enorme estrutura de poder.


Não podemos aceitar que disputar uma eleição no Distrito Federal se transforme em privilégio de quem possui milhões, famílias poderosas, padrinhos políticos ou influência dentro do governo.


O cidadão que veio da comunidade precisa ter o direito real — e não apenas formal — de disputar.


O líder comunitário precisa poder disputar.


O professor precisa poder disputar.


O profissional de saúde precisa poder disputar.


O pequeno empresário precisa poder disputar.


A dona de casa precisa poder disputar.


O trabalhador precisa poder disputar.


E todos precisam ser julgados pelo eleitor principalmente por suas propostas, sua história, sua capacidade e seu caráter, e não pelo tamanho da estrutura financeira que conseguem colocar nas ruas.


A ELEIÇÃO PASSA. A HISTÓRIA FICA.


O eleitor precisa começar a olhar além da bandeira, do wind banner, da festa, do vídeo bonito e da quantidade de pessoas contratadas ou mobilizadas nas ruas.


Antes de escolher alguém, procure saber quem essa pessoa era antes de precisar do seu voto.


Porque depois das eleições as bandeiras desaparecem.


Os wind banners são recolhidos.


As equipes deixam as ruas.


As festas acabam.


E muitos candidatos também desaparecem.


Quem realmente trabalha pela sociedade, porém, continua lá.


Talvez a maior revolução eleitoral que o Distrito Federal possa fazer em 2026 não dependa de dinheiro, estrutura ou máquina pública.


Dependa apenas de uma pergunta feita conscientemente diante da urna:


“O que esse candidato já fez pela sociedade antes de pedir o meu voto?”


Essa resposta pode separar quem deseja apenas chegar ao poder de quem realmente pretende utilizá-lo para servir à população.


Gilberto Camargos

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

LIDERANÇA COMUNITÁRIA NÃO VENDE A SUA COMUNIDADE


Existe uma diferença enorme entre ser liderança comunitária e apenas usar uma comunidade como instrumento para alcançar interesses pessoais, políticos ou eleitorais.

Por Isabela Camargos

Uma verdadeira liderança não nasce durante uma eleição. Ela é construída ao longo dos anos, no convívio com os moradores, nas dificuldades, nas reuniões, nas reivindicações, nas derrotas e nas conquistas coletivas.


Liderança comunitária é serviço. É trabalho voluntário. É estar presente quando o problema aparece, e não somente quando existe interesse político. Quem realmente exerce esse papel não cobra para defender a população, não transforma sua atuação social em negócio e muito menos trata os moradores como mercadoria eleitoral.


Liderança comunitária não vende a sua comunidade.


Eu sou bairrista, sim, e digo isso com orgulho. Mas ser bairrista não significa desrespeitar outras cidades ou seus moradores. Significa valorizar nossa cidade, nossas lideranças, nossos comerciantes e, principalmente, aqueles que construíram sua história e estiveram presentes nas horas difíceis.


Defender primeiro a nossa cidade não é atacar as demais. É uma questão de pertencimento, respeito e valorização.


Façamos uma comparação simples.


Imagine que você tenha um comércio. Durante anos trabalha, conquista seus clientes e constrói sua credibilidade. De repente, alguém entra no seu estabelecimento acompanhado de outro comerciante, de outra região, que vende exatamente o mesmo produto e começa a oferecê-lo aos clientes que você levou anos para conquistar.


Isso seria, no mínimo, uma enorme falta de respeito.


Na vida comunitária acontece algo semelhante quando alguém utiliza o espaço, os grupos, a estrutura ou a influência construída dentro de uma comunidade para trazer candidatos de outras regiões que nunca participaram das nossas lutas, nunca estiveram presentes nos momentos difíceis e nunca fizeram qualquer trabalho relevante pela cidade.


Não estou dizendo que alguém deve ser impedido de entrar em nossa cidade ou apresentar sua candidatura. Muito menos que o morador não possa votar em quem quiser.


O voto é livre, pessoal e democrático.


A questão é outra: qual deve ser a postura de quem se apresenta como liderança comunitária?


Se existem pessoas da própria região que passaram anos trabalhando voluntariamente, enfrentando problemas, buscando soluções e participando das grandes lutas da comunidade, é difícil compreender que uma liderança ignore toda essa história para abrir as portas justamente para quem só conhece a cidade quando precisa de votos.


Durante anos, muitos não participam das reuniões, não aparecem nas dificuldades, não ajudam nas reivindicações e não enfrentam os problemas. Quando chegam as eleições, aparecem candidatos, cabos eleitorais, fotografias e promessas.


Comunidade não pode ser tratada como mercado eleitoral. Morador não é mercadoria. E liderança comunitária não pode funcionar como corretora de votos.


É legítimo apoiar politicamente alguém. Mas quem ocupa uma posição de liderança precisa preservar sua independência e compreender que a confiança recebida dos moradores não pode ser negociada ou transferida como se fosse propriedade particular.


A confiança pertence ao cidadão. O voto pertence ao cidadão. A comunidade pertence aos moradores.


Uma liderança pode orientar, informar, apresentar propostas e mostrar quem esteve ou não presente. Mas jamais deveria se considerar dona dos votos daqueles que representa.


Também não deveria diminuir outras lideranças locais para abrir espaço para interesses externos. Pelo contrário: quem ama sua cidade deveria querer que mais pessoas da própria comunidade cresçam, ocupem espaços e tenham condições de defendê-la.


Uma cidade forte é construída com moradores participativos, comerciantes valorizados, associações independentes, lideranças comprometidas e representantes que conheçam seus problemas.


Por isso, acredito em um princípio muito simples:


Quem ama sua comunidade não a vende.


Quem representa sua comunidade não negocia seu povo.


E quem vem de fora merece respeito, mas deve conquistar democraticamente o eleitor, apresentando sua história e suas propostas — e não entrar no quintal de uma comunidade pelas mãos de quem deveria estar valorizando aqueles que passaram anos cuidando desse quintal.


Isso não é ser contra ninguém.


É ser a favor da nossa cidade, da nossa história e do respeito à nossa comunidade.