terça-feira, 20 de outubro de 2026

JORNAL CONVERSA INFORMAL DE OUTUBRO DE 2026










 

Meu primeiro voto, minha primeira grande decepção com a política

 


Eu acreditava que o povo queria mudanças. Mas, na minha primeira eleição como eleitora, descobri que muitos brasileiros parecem preferir viver a mentira que eles próprios alimentam.


Votei pela primeira vez nas eleições de 2026. Era um momento que deveria representar esperança, renovação e a oportunidade de participar da construção de um futuro melhor para o Distrito Federal.


Como jovem, acompanhei milhares de pessoas nas redes sociais reclamando da corrupção, dos políticos tradicionais, dos privilégios e da falta de compromisso com a população. Vi discursos exigindo honestidade, justiça e mudanças.


Confesso que esperava muito mais.


Quando chegaram os resultados das urnas, minha esperança deu lugar à indignação. Não porque meus candidatos preferidos deixaram de vencer, mas porque percebi uma contradição enorme entre aquilo que muitos eleitores dizem e fazem.


Nas redes sociais, condenam a corrupção. Nas urnas, continuam prestigiando estruturas políticas que afirmam combater.


O que mais me entristece é perceber que muitos não estão apenas sendo enganados pelos políticos. Estão enganando a si mesmos.


QUANDO O DINHEIRO PARECE VALER MAIS QUE A HISTÓRIA


Durante a campanha, vi candidatos com estruturas gigantescas, milhares de bandeiras, equipes espalhadas pelas ruas e influência de grupos econômicos, religiosos e políticos.

Enquanto isso, pessoas que dedicaram décadas à defesa das comunidades, sem receber salários ou ocupar cargos públicos, enfrentavam dificuldades até para apresentar suas propostas.


Desde quando o tamanho de uma campanha passou a valer mais do que a história de uma pessoa?


Será que alguém que aparece três meses antes das eleições, cercado de dinheiro e propaganda, merece mais confiança do que quem passou anos cobrando governos e defendendo famílias?


Não sou contra candidatos ricos, religiosos ou de outras cidades. Sou contra a ideia de que dinheiro, influência e discursos possam substituir trabalho e resultados.


A política deveria ser uma oportunidade para servir, não um investimento para conquistar poder.


LIDERANÇA COMUNITÁRIA NÃO VENDE SUA COMUNIDADE


Uma das maiores lições que aprendi é que liderança comunitária não se compra, não se vende e não deveria ter preço.


Quem verdadeiramente lidera uma comunidade trabalha por ela antes, durante e depois das eleições.


Não transforma moradores em mercadoria eleitoral nem negocia apoio político em troca de cargos, favores ou benefícios pessoais.


A verdadeira liderança apresenta propostas, cobra compromissos e respeita o direito de cada cidadão escolher livremente.


Aprendi que existem pessoas que sacrificam tempo, recursos e até a própria saúde para defender uma cidade, enquanto outras aparecem apenas quando precisam de votos.


Mas parece que, para muitos eleitores, uma bandeira na esquina vale mais do que décadas de trabalho pela população.


A GRATIDÃO TAMBÉM FAZ PARTE DA DEMOCRACIA


Não acredito que alguém deva votar em outra pessoa por obrigação ou gratidão. O voto é livre.


Mas existe uma diferença enorme entre não votar em alguém e apagar sua história.


Gratidão não significa submissão. Significa reconhecer quem trabalhou, enfrentou dificuldades e ajudou a construir benefícios que hoje pertencem a todos.


Uma sociedade que não reconhece aqueles que trabalham por ela dificilmente incentivará outras pessoas a fazerem o mesmo.


Não devemos votos a ninguém. Mas devemos respeito à verdade e à história.


O QUE MAIS ME DECEPCIONOU FOI O COMPORTAMENTO DO ELEITOR


Os escândalos envolvendo o Banco Master e o BRB, as denúncias relacionadas ao INSS e os questionamentos sobre o uso da máquina pública deveriam ter provocado uma discussão mais profunda sobre responsabilidade política.


Isso não significa considerar culpado todo político citado em investigação ou que tenha apoiado uma decisão controversa. Mas o eleitor deveria pesquisar, questionar e exigir explicações antes de entregar novamente sua confiança.


Em vez disso, vi pessoas defendendo seus candidatos como se estivessem defendendo times de futebol.


Se o problema envolve o adversário, é escândalo. Se envolve o candidato preferido, aparecem as desculpas.


Que combate à corrupção é esse que depende de quem está sendo acusado?


Essa é a mentira que mais me incomoda: exigir dos outros uma honestidade que não cobramos daqueles que escolhemos apoiar.


NÃO QUERO APRENDER QUE A POLÍTICA É ASSIM MESMO


Talvez algumas pessoas digam que sou jovem, que ainda não entendo a política ou que preciso aceitar a realidade.


Mas não quero aceitar como normal uma democracia em que o poder econômico tenha tanta influência, estruturas políticas se perpetuem e pessoas honestas, sem grandes recursos, tenham dificuldade de ser ouvidas.


Não quero acreditar que a população esteja condenada a escolher sempre entre os mesmos grupos.


Também não quero perder a esperança porque minha primeira experiência eleitoral foi decepcionante.


Quero continuar acreditando que existem pessoas capazes de fazer política com honestidade, coragem, independência e compromisso social.


E que minha geração poderá fazer escolhas melhores.


MINHA PRIMEIRA ELEIÇÃO ME ENSINOU UMA DURA LIÇÃO


Descobri que mudar a política é muito mais difícil do que publicar mensagens indignadas nas redes sociais.


Descobri que nem sempre o eleitor valoriza quem trabalha silenciosamente pela sociedade.


E descobri que a mentira mais perigosa talvez seja aquela que contamos para nós mesmos quando afirmamos querer mudanças, mas nos recusamos a mudar nossos critérios de escolha.


Não estou dizendo que todos os eleitores agem assim, nem que todos os reeleitos sejam desonestos. Existem pessoas sérias em diferentes partidos e posições políticas.


Mas não podemos continuar tratando a eleição como uma disputa de torcidas e depois reclamar das consequências.


Meu primeiro voto não trouxe a mudança que eu esperava. Mas trouxe uma certeza: não quero fazer parte de uma geração que reclama de tudo e não assume responsabilidade por nada.


A eleição acabou. Os problemas das comunidades permanecem. Agora veremos quem continuará trabalhando pela população quando não houver mais votos para conquistar.


Porque a maior diferença não está entre quem ganhou e quem perdeu.


Está entre quem vive para servir à sociedade e quem se aproxima dela apenas para conquistar o poder.


E deixo uma pergunta a todos que desejam um país melhor:


SE REALMENTE QUEREMOS MUDAR A POLÍTICA, POR QUE TANTAS VEZES NOS RECUSAMOS A MUDAR A FORMA COMO VOTAMOS?


Isabel Camargos: Uma jovem eleitora que ainda acredita na democracia, mas esperava muito mais da sua primeira eleição.

O povo grita contra a corrupção, mas nas urnas reelege os mesmos políticos: Quem está enganando quem?

 

Eleições de 2026 no Distrito Federal expõem contradição entre o discurso de mudança e a força das máquinas eleitorais, campanhas milionárias, influência religiosa e estruturas políticas que exigem investigação.


As eleições de 2026 deixaram uma pergunta incômoda para a população do Distrito Federal: onde foram parar os discursos contra a corrupção, os pedidos de renovação e a indignação diariamente manifestada nas redes sociais?


Durante dias, meses e anos, milhares de eleitores criticaram políticos, denunciaram privilégios, condenaram escândalos e exigiram mudanças. Entretanto, quando chegou o momento de transformar palavras em votos, as urnas demonstraram novamente a força dos mesmos grupos políticos frequentemente criticados pela sociedade.


A contradição é gritante: o povo reclama dos políticos, mas continua devolvendo o poder a muitos daqueles que representam as estruturas que tanto condena.


O escândalo envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) é um exemplo que merece reflexão. Dos 15 deputados distritais que aprovaram a operação de compra do Banco Master pelo BRB, 11 foram reeleitos e outro conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados, conforme levantamento divulgado após as eleições.


Isso não comprova que esses parlamentares tenham cometido crimes. Entretanto, diante de uma operação tão controversa, é legítimo questionar por que o apoio político à transação não provocou maior rejeição eleitoral.


O debate também alcança políticos citados em investigações, denúncias de crimes eleitorais e escândalos nacionais, como as fraudes no INSS. É indispensável distinguir investigados, acusados e condenados, mas também exigir transparência e responsabilidade.


CAMPANHAS DECLARAM POUCO, MAS EXIBEM ESTRUTURAS GIGANTESCAS


Outro aspecto que precisa ser investigado é a aparente incompatibilidade entre os valores oficialmente declarados por determinadas campanhas e a dimensão das estruturas eleitorais mobilizadas nas ruas.


Há relatos de candidatos eleitos com apoio de centenas de militantes, grandes equipes de propaganda, milhares de bandeiras, veículos, materiais publicitários e mobilização permanente em diferentes regiões do Distrito Federal.


Como uma campanha aparentemente tão cara pode apresentar gastos oficiais relativamente modestos? Quem financiou toda essa estrutura? O que foi pago, doado ou realizado voluntariamente? Tudo foi devidamente contabilizado?


Um exemplo que merece apuração envolve relatos sobre candidatura ligada ao meio evangélico, que teria contado com o apoio e empenho de aproximadamente mil igrejas, mais de 300 cabos eleitorais nas ruas e influência sobre centenas de cargos indicados na estrutura governamental.


Esses números precisam ser documentalmente confirmados. Entretanto, se corresponderem à realidade, justificam uma investigação sobre a origem dos recursos, a natureza do apoio recebido, a participação de agentes públicos e sua compatibilidade com as prestações de contas.


O apoio pessoal de religiosos e o trabalho voluntário são legítimos dentro da legislação. O que não pode ocorrer é a utilização irregular de instituições religiosas, recursos públicos ou estruturas administrativas para favorecer candidaturas.


Fé não pode ser transformada em instrumento de pressão eleitoral. Cargo público não pode funcionar como pagamento por apoio político. E a máquina do governo não pode servir de extensão de comitês de campanha.


A Justiça Eleitoral precisa verificar não apenas quanto os candidatos declararam gastar, mas também a origem, a natureza e a contabilização das estruturas efetivamente utilizadas.


A MÁQUINA PÚBLICA NÃO PODE TER DONO


Outro questionamento envolve a influência de parlamentares governistas sobre administrações regionais, secretarias e cargos comissionados.


É necessário investigar se essas estruturas foram utilizadas exclusivamente para atender à população ou se houve desvio de finalidade para favorecer campanhas de reeleição.


Não se pode considerar todo servidor comissionado um cabo eleitoral. Entretanto, também não se pode ignorar o risco de utilização de cargos, nomeações e dependência funcional como instrumentos de influência política.


Se comprovado, isso não representa apenas uma vantagem eleitoral: representa uma agressão à igualdade da disputa e à própria democracia.


Enquanto determinados candidatos contam com estruturas políticas consolidadas, outros, vindos das comunidades, enfrentam dificuldades para financiar até mesmo os materiais básicos de campanha.


São lideranças que dedicaram décadas à saúde, educação, regularização fundiária, infraestrutura e defesa dos moradores, mas não possuem milhões, grandes estruturas partidárias ou influência dentro do governo.


A democracia não pode se transformar em privilégio dos ricos, dos poderosos e daqueles que controlam estruturas políticas.


ONDE ESTAVA A FISCALIZAÇÃO?


Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: quem fiscalizou a dimensão real dessas campanhas?


A Justiça Eleitoral dispõe de mecanismos para verificar gastos, contratações, doações e possíveis abusos de poder econômico e político.


O Tribunal Superior Eleitoral estabelece limites para contratação de pessoal e regras de prestação de contas. Mas é preciso conferir se os valores declarados refletem corretamente as despesas, os serviços e os recursos efetivamente empregados.


Campanhas gigantescas não são automaticamente ilegais. O problema surge quando existem recursos omitidos, doações irregulares, abuso de poder ou utilização indevida da administração pública.


Não basta fiscalizar o candidato pequeno que distribui santinhos. É necessário investigar, com o mesmo rigor, aqueles que mobilizam estruturas gigantescas e conquistam milhares de votos.


O ELEITOR TAMBÉM PRECISA ASSUMIR SUA RESPONSABILIDADE


Não basta compartilhar denúncias, reclamar da corrupção e exigir renovação. É necessário conhecer a história dos candidatos, verificar suas propostas e acompanhar suas decisões.


O eleitor não é culpado pelos crimes eventualmente cometidos por seus representantes. Entretanto, suas escolhas ajudam a determinar quem continuará exercendo o poder.


Também é preciso reconhecer que nem todo político reeleito é corrupto, assim como nem todo candidato novo é honesto.


Corrupção não tem partido, ideologia, religião ou candidato de estimação.


A política não mudará enquanto a indignação for seletiva, enquanto os erros dos adversários forem condenados e os dos aliados forem justificados.


Depois das eleições, as bandeiras desaparecem, os cabos eleitorais deixam as ruas, as festas terminam e muitos candidatos só voltarão a procurar a população quando precisarem novamente de votos.


Quem realmente trabalha pela sociedade continua presente, independentemente de ocupar cargo público.


As eleições de 2026 deixaram uma lição: reclamar não é suficiente. A mudança exige consciência, informação, fiscalização e responsabilidade.


O povo tem o direito de votar em quem quiser, mas precisa compreender que suas escolhas também ajudam a construir a realidade política que depois critica.


E ficam duas perguntas que deveriam incomodar toda a sociedade:


SE O POVO DIZ QUE NÃO AGUENTA MAIS A CORRUPÇÃO E A VELHA POLÍTICA, POR QUE CONTINUA DEVOLVENDO O PODER A TANTOS DOS MESMOS REPRESENTANTES?


E SE AS CAMPANHAS DECLARARAM GASTOS MODESTOS, QUEM PAGOU PELAS ESTRUTURAS GIGANTESCAS QUE O ELEITOR VIU NAS RUAS?


Gilberto Camargos