terça-feira, 10 de março de 2026

Estratégia Vermelha: Por que o PT poupa Flávio Bolsonaro e mira Tarcísio para 2026?

 


Por Gilberto Camargos

BRASÍLIA – Com o tabuleiro eleitoral para 2026 começando a ganhar contornos definidos, o Partido dos Trabalhadores (PT) calibrou sua artilharia. Em uma manobra que mistura pragmatismo e cálculo de risco, o núcleo duro do governo decidiu adotar uma postura de "indiferença estratégica" em relação à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), enquanto concentra fogo pesado no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

O "Adversário Ideal" e o Teto de Vidro

Internamente, a avaliação petista é de que Flávio Bolsonaro encarna o "adversário ideal". Segundo interlocutores do partido, o filho "01" do ex-presidente carrega uma rejeição superior à do próprio pai, o que facilitaria a construção de uma frente ampla em um eventual segundo turno.

Ao não atacar Flávio, o PT busca manter viva uma candidatura que, aos olhos do Planalto, tem um teto de crescimento limitado, mas fôlego suficiente para sufocar nomes de centro que poderiam oferecer um discurso mais moderado e perigoso para o presidente Lula.

O "Perigo Real" vem de São Paulo

Se Flávio é visto como um oponente de fácil rotulagem, Tarcísio de Freitas é tratado como a verdadeira ameaça. O foco das críticas petistas migrou para o Palácio dos Bandeirantes por três motivos principais:

  • Capacidade de Aglutinação: Tarcísio transita entre o bolsonarismo raiz e o eleitorado de centro-direita.

  • Gestão: O controle da maior vitrine econômica do país (São Paulo) dá a ele um discurso de "eficiência" difícil de combater apenas no campo ideológico.

  • Herdeiro Político: O PT o identifica como o real sucessor do espólio eleitoral da direita, capaz de furar a bolha da polarização.

Reorganização da Imagem: O Recuo de Janja

Paralelamente ao jogo externo, o governo opera uma reorganização de imagem interna. Após um período de intensa exposição e participação ativa em decisões políticas — o que gerou desgastes e munição para a oposição —, a primeira-dama Janja Lula da Silva teve sua agenda remodelada.

A estratégia visa minimizar flancos de ataque e ruídos de comunicação. O "esvaziamento" da agenda pública da primeira-dama é visto como um movimento tático para centralizar o foco no desempenho do governo e na figura institucional do presidente, evitando polêmicas que possam ser exploradas por adversários no longo prazo.

"A ordem é clara: focar no que é competitivo e ignorar o que se autodesgasta," afirma uma liderança da base aliada sob condição de anonimato.

O Futuro da Polarização

Para o PT, garantir que a eleição de 2026 seja uma repetição da polarização "PT vs. Bolsonarismo" é o caminho mais seguro. Ao tratar a candidatura de Flávio Bolsonaro como uma "movimentação de bastidor" e não um projeto definitivo, o partido espera que a própria dinâmica da direita desgaste o senador, enquanto eles tentam desconstruir a imagem de Tarcísio antes que ele se consolide nacionalmente como a "terceira via" viável.

Para concorrer a Presidência, Tarcísio teria que se desvincular até abril e não o fazendo somente poderá concorrer a reeleição ao Estado de São Paulo e é com isso que o PT está contando para garantir a vitória.

Gilberto Camargos

quinta-feira, 5 de março de 2026

JORNAL CONVERSA INFORMAL MARÇO DE 2026

 
















segunda-feira, 2 de março de 2026

O PDOT E A CONTA QUE SOBROU PARA OS MORADORES DA 26 DE SETEMBRO PAGAR

 


Enquanto autoridades E SUPOSTAS LIDERANÇAS comemoram a sanção do novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT), moradores da Colônia Agrícola 26 de Setembro vivem um cenário bem diferente do discurso oficial.
O que foi apresentado como “conquista histórica”, na prática, transformou assentados antigos e parcelamentos provenientes de quem tinha direito a escritura, em devedores de uma terra que ajudaram a consolidar ao longo de quase três décadas.

A narrativa política do deputado fala em regularização. A realidade aponta para cobrança daquilo que pertencia legalmente aos assentados e atuais moradores.

E a pergunta que ecoa entre as famílias é simples: de quem é a terra juridicamente hoje?

Eu Gilberto Camargos ou explicar detalhe por detalhe do porque a terra pertence aos moradores e ninguém precisa pagar novamente, fato que o deputado e as supostas lideranças não querem nem discutir...

📍 A origem: 1996 – o assentamento decreto 17.502

Em 1996, a área foi destinada a assentamento pela então Fundação Zoobotânica do Distrito Federal. Famílias foram instaladas, passaram a produzir alimentos, construir moradias e cumprir função social da terra.

Tratava-se de política pública oficial.

Dois anos depois, em 1998, veio a surpresa: a área foi incluída na Floresta Nacional de Brasília.


📍 O que significa virar Flona?

A Floresta Nacional é uma unidade de conservação federal administrada pelo ICMBio.

Quando uma área é transformada em Flona:

  • Passa a ser considerada bem da União.

  • Fica sob gestão federal.

  • Sai, em tese, da esfera patrimonial do DF.

Mas há um detalhe jurídico crucial:
a criação de unidade de conservação não transfere automaticamente o domínio da terra sem processo formal de incorporação e registro.

E no caso da 26 de Setembro, segundo registros imobiliários, a área continuou em nome da Terracap.

Ou seja: houve mudança ambiental, não necessariamente mudança dominial.


📍 Vinte anos depois: a desafetação pela AMOVIPE

Com a consolidação do assentamento, crescimento populacional e reconhecimento da irreversibilidade da ocupação, o Congresso aprovou projeto de lei feito pela AMOVIPE,  retirando da área da Flona.

O próprio Estado reconheceu que a ocupação estava consolidada.

Mas a desafetação não resolveu a questão central: quem deve titular os moradores?


📍 O direito à titulação ignorado

Pelas normas aplicáveis aos assentamentos e à regularização fundiária:

  • Após 5 anos → deveria ocorrer titulação provisória.

  • Após cumprimento das condições → escritura definitiva.

Estamos falando de quase 30 anos de ocupação.

Se o assentamento foi criado pelo próprio Estado, e se a legislação previa titulação, surge um ponto sensível:

Houve omissão administrativa?

O Estado pode:

  • Assentar famílias;

  • Estimular produção;

  • Reconhecer consolidação social;

  • Retirar a área de unidade de conservação por causa dessa ocupação;

  • E depois cobrar como se fosse terra disponível para venda?

Essa é a controvérsia.


O papel do PDOT

A sanção do novo PDOT foi celebrada por um deputado distrital e por lideranças locais como grande avanço para a região.

Mas moradores afirmam que, na prática, o plano abriu caminho para consolidação do domínio pela Terracap, permitindo cobrança de valores considerados abusivos.

Críticos apontam que o discurso de “regularização” estaria servindo para transformar política pública social em operação imobiliária.

Enquanto há comemoração política, há também insegurança jurídica.


A questão jurídica central

Se:

  • A área permaneceu registrada em nome da Terracap;

  • Nunca houve transferência formal à União;

  • O assentamento foi anterior à Flona;

  • A ocupação foi reconhecida como irreversível;

Então o debate deixa de ser apenas dominial e passa a ser:

descumprimento do dever de titular os assentados.

A Constituição garante:

  • Função social da propriedade (art. 5º, XXIII)

  • Direito à moradia (art. 6º)

  • Segurança jurídica

Além disso, a Lei 13.465/2017 prevê instrumentos de Regularização Fundiária de Interesse Social (REURB-S).


Pode haver reversão?

Especialistas apontam possíveis caminhos jurídicos:

  • Ação de obrigação de fazer para exigir titulação;

  • Ação declaratória questionando cobrança;

  • Ação civil pública coletiva;

  • Pedido formal de REURB-S.

O argumento central não seria negar o domínio formal da Terracap, mas sustentar que:

O Estado não pode transformar assentamento consolidado em venda comum de terra pública.


Política ou interesse social?

O deputado mesmo avisado pela AMOVIPE, amparado por supostas lideranças que enganaram os moradores e celebraram o PDOT de agir em favor da empresa pública e não da comunidade.

Essas lideranças locais que estão apresentando a medida como vitória, apesar da insegurança gerada, ou estão do lado do Deputado, o que é a maioria dos casos, ou são lideranças que desconhecem a realidade da região e direitos dos moradores ou não querem ir contra o governo em prol dos moradores.

A retórica é forte:

“Cuidado com lobos em pele de ovelha”, dizem representantes comunitários.

Por outro lado, defensores do plano afirmam que o PDOT é instrumento técnico e necessário para organizar o território.


Conclusão

O debate sobre a 26 de Setembro não é apenas jurídico ou ambiental. É social.

De um lado:

  • Propriedade formal da Terracap.

  • Instrumentos de ordenamento territorial.

De outro:

  • Quase 30 anos de ocupação.

  • Produção rural.

  • Consolidação comunitária.

  • Expectativa legítima de titulação.

A pergunta permanece aberta:

A regularização será instrumento de justiça social ou mecanismo de cobrança?

A resposta pode não estar no discurso político, mas nas decisões judiciais que serão impetradas pela AMOVIPE e por moradores que se sentirem prejudicados.

E, enquanto isso, se nada judicial for feito, os moradores ficam sem definição clara sobre aquilo que, há décadas, chamam de lar e que poderão quando vier a tal regularização onde a maioria não terá condições de pagar

Gilberto Camargos