sexta-feira, 11 de setembro de 2026

LIDERANÇA COMUNITÁRIA NÃO VENDE A SUA COMUNIDADE


Existe uma diferença enorme entre ser liderança comunitária e apenas usar uma comunidade como instrumento para alcançar interesses pessoais, políticos ou eleitorais.

Por Isabela Camargos

Uma verdadeira liderança não nasce durante uma eleição. Ela é construída ao longo dos anos, no convívio com os moradores, nas dificuldades, nas reuniões, nas reivindicações, nas derrotas e nas conquistas coletivas.


Liderança comunitária é serviço. É trabalho voluntário. É estar presente quando o problema aparece, e não somente quando existe interesse político. Quem realmente exerce esse papel não cobra para defender a população, não transforma sua atuação social em negócio e muito menos trata os moradores como mercadoria eleitoral.


Liderança comunitária não vende a sua comunidade.


Eu sou bairrista, sim, e digo isso com orgulho. Mas ser bairrista não significa desrespeitar outras cidades ou seus moradores. Significa valorizar nossa cidade, nossas lideranças, nossos comerciantes e, principalmente, aqueles que construíram sua história e estiveram presentes nas horas difíceis.


Defender primeiro a nossa cidade não é atacar as demais. É uma questão de pertencimento, respeito e valorização.


Façamos uma comparação simples.


Imagine que você tenha um comércio. Durante anos trabalha, conquista seus clientes e constrói sua credibilidade. De repente, alguém entra no seu estabelecimento acompanhado de outro comerciante, de outra região, que vende exatamente o mesmo produto e começa a oferecê-lo aos clientes que você levou anos para conquistar.


Isso seria, no mínimo, uma enorme falta de respeito.


Na vida comunitária acontece algo semelhante quando alguém utiliza o espaço, os grupos, a estrutura ou a influência construída dentro de uma comunidade para trazer candidatos de outras regiões que nunca participaram das nossas lutas, nunca estiveram presentes nos momentos difíceis e nunca fizeram qualquer trabalho relevante pela cidade.


Não estou dizendo que alguém deve ser impedido de entrar em nossa cidade ou apresentar sua candidatura. Muito menos que o morador não possa votar em quem quiser.


O voto é livre, pessoal e democrático.


A questão é outra: qual deve ser a postura de quem se apresenta como liderança comunitária?


Se existem pessoas da própria região que passaram anos trabalhando voluntariamente, enfrentando problemas, buscando soluções e participando das grandes lutas da comunidade, é difícil compreender que uma liderança ignore toda essa história para abrir as portas justamente para quem só conhece a cidade quando precisa de votos.


Durante anos, muitos não participam das reuniões, não aparecem nas dificuldades, não ajudam nas reivindicações e não enfrentam os problemas. Quando chegam as eleições, aparecem candidatos, cabos eleitorais, fotografias e promessas.


Comunidade não pode ser tratada como mercado eleitoral. Morador não é mercadoria. E liderança comunitária não pode funcionar como corretora de votos.


É legítimo apoiar politicamente alguém. Mas quem ocupa uma posição de liderança precisa preservar sua independência e compreender que a confiança recebida dos moradores não pode ser negociada ou transferida como se fosse propriedade particular.


A confiança pertence ao cidadão. O voto pertence ao cidadão. A comunidade pertence aos moradores.


Uma liderança pode orientar, informar, apresentar propostas e mostrar quem esteve ou não presente. Mas jamais deveria se considerar dona dos votos daqueles que representa.


Também não deveria diminuir outras lideranças locais para abrir espaço para interesses externos. Pelo contrário: quem ama sua cidade deveria querer que mais pessoas da própria comunidade cresçam, ocupem espaços e tenham condições de defendê-la.


Uma cidade forte é construída com moradores participativos, comerciantes valorizados, associações independentes, lideranças comprometidas e representantes que conheçam seus problemas.


Por isso, acredito em um princípio muito simples:


Quem ama sua comunidade não a vende.


Quem representa sua comunidade não negocia seu povo.


E quem vem de fora merece respeito, mas deve conquistar democraticamente o eleitor, apresentando sua história e suas propostas — e não entrar no quintal de uma comunidade pelas mãos de quem deveria estar valorizando aqueles que passaram anos cuidando desse quintal.


Isso não é ser contra ninguém.


É ser a favor da nossa cidade, da nossa história e do respeito à nossa comunidade.

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