Eu acreditava que o povo queria mudanças. Mas, na minha primeira eleição como eleitora, descobri que muitos brasileiros parecem preferir viver a mentira que eles próprios alimentam.
Votei pela primeira vez nas eleições de 2026. Era um momento que deveria representar esperança, renovação e a oportunidade de participar da construção de um futuro melhor para o Distrito Federal.
Como jovem, acompanhei milhares de pessoas nas redes sociais reclamando da corrupção, dos políticos tradicionais, dos privilégios e da falta de compromisso com a população. Vi discursos exigindo honestidade, justiça e mudanças.
Confesso que esperava muito mais.
Quando chegaram os resultados das urnas, minha esperança deu lugar à indignação. Não porque meus candidatos preferidos deixaram de vencer, mas porque percebi uma contradição enorme entre aquilo que muitos eleitores dizem e fazem.
Nas redes sociais, condenam a corrupção. Nas urnas, continuam prestigiando estruturas políticas que afirmam combater.
O que mais me entristece é perceber que muitos não estão apenas sendo enganados pelos políticos. Estão enganando a si mesmos.
QUANDO O DINHEIRO PARECE VALER MAIS QUE A HISTÓRIA
Durante a campanha, vi candidatos com estruturas gigantescas, milhares de bandeiras, equipes espalhadas pelas ruas e influência de grupos econômicos, religiosos e políticos.
Enquanto isso, pessoas que dedicaram décadas à defesa das comunidades, sem receber salários ou ocupar cargos públicos, enfrentavam dificuldades até para apresentar suas propostas.
Desde quando o tamanho de uma campanha passou a valer mais do que a história de uma pessoa?
Será que alguém que aparece três meses antes das eleições, cercado de dinheiro e propaganda, merece mais confiança do que quem passou anos cobrando governos e defendendo famílias?
Não sou contra candidatos ricos, religiosos ou de outras cidades. Sou contra a ideia de que dinheiro, influência e discursos possam substituir trabalho e resultados.
A política deveria ser uma oportunidade para servir, não um investimento para conquistar poder.
LIDERANÇA COMUNITÁRIA NÃO VENDE SUA COMUNIDADE
Uma das maiores lições que aprendi é que liderança comunitária não se compra, não se vende e não deveria ter preço.
Quem verdadeiramente lidera uma comunidade trabalha por ela antes, durante e depois das eleições.
Não transforma moradores em mercadoria eleitoral nem negocia apoio político em troca de cargos, favores ou benefícios pessoais.
A verdadeira liderança apresenta propostas, cobra compromissos e respeita o direito de cada cidadão escolher livremente.
Aprendi que existem pessoas que sacrificam tempo, recursos e até a própria saúde para defender uma cidade, enquanto outras aparecem apenas quando precisam de votos.
Mas parece que, para muitos eleitores, uma bandeira na esquina vale mais do que décadas de trabalho pela população.
A GRATIDÃO TAMBÉM FAZ PARTE DA DEMOCRACIA
Não acredito que alguém deva votar em outra pessoa por obrigação ou gratidão. O voto é livre.
Mas existe uma diferença enorme entre não votar em alguém e apagar sua história.
Gratidão não significa submissão. Significa reconhecer quem trabalhou, enfrentou dificuldades e ajudou a construir benefícios que hoje pertencem a todos.
Uma sociedade que não reconhece aqueles que trabalham por ela dificilmente incentivará outras pessoas a fazerem o mesmo.
Não devemos votos a ninguém. Mas devemos respeito à verdade e à história.
O QUE MAIS ME DECEPCIONOU FOI O COMPORTAMENTO DO ELEITOR
Os escândalos envolvendo o Banco Master e o BRB, as denúncias relacionadas ao INSS e os questionamentos sobre o uso da máquina pública deveriam ter provocado uma discussão mais profunda sobre responsabilidade política.
Isso não significa considerar culpado todo político citado em investigação ou que tenha apoiado uma decisão controversa. Mas o eleitor deveria pesquisar, questionar e exigir explicações antes de entregar novamente sua confiança.
Em vez disso, vi pessoas defendendo seus candidatos como se estivessem defendendo times de futebol.
Se o problema envolve o adversário, é escândalo. Se envolve o candidato preferido, aparecem as desculpas.
Que combate à corrupção é esse que depende de quem está sendo acusado?
Essa é a mentira que mais me incomoda: exigir dos outros uma honestidade que não cobramos daqueles que escolhemos apoiar.
NÃO QUERO APRENDER QUE A POLÍTICA É ASSIM MESMO
Talvez algumas pessoas digam que sou jovem, que ainda não entendo a política ou que preciso aceitar a realidade.
Mas não quero aceitar como normal uma democracia em que o poder econômico tenha tanta influência, estruturas políticas se perpetuem e pessoas honestas, sem grandes recursos, tenham dificuldade de ser ouvidas.
Não quero acreditar que a população esteja condenada a escolher sempre entre os mesmos grupos.
Também não quero perder a esperança porque minha primeira experiência eleitoral foi decepcionante.
Quero continuar acreditando que existem pessoas capazes de fazer política com honestidade, coragem, independência e compromisso social.
E que minha geração poderá fazer escolhas melhores.
MINHA PRIMEIRA ELEIÇÃO ME ENSINOU UMA DURA LIÇÃO
Descobri que mudar a política é muito mais difícil do que publicar mensagens indignadas nas redes sociais.
Descobri que nem sempre o eleitor valoriza quem trabalha silenciosamente pela sociedade.
E descobri que a mentira mais perigosa talvez seja aquela que contamos para nós mesmos quando afirmamos querer mudanças, mas nos recusamos a mudar nossos critérios de escolha.
Não estou dizendo que todos os eleitores agem assim, nem que todos os reeleitos sejam desonestos. Existem pessoas sérias em diferentes partidos e posições políticas.
Mas não podemos continuar tratando a eleição como uma disputa de torcidas e depois reclamar das consequências.
Meu primeiro voto não trouxe a mudança que eu esperava. Mas trouxe uma certeza: não quero fazer parte de uma geração que reclama de tudo e não assume responsabilidade por nada.
A eleição acabou. Os problemas das comunidades permanecem. Agora veremos quem continuará trabalhando pela população quando não houver mais votos para conquistar.
Porque a maior diferença não está entre quem ganhou e quem perdeu.
Está entre quem vive para servir à sociedade e quem se aproxima dela apenas para conquistar o poder.
E deixo uma pergunta a todos que desejam um país melhor:
SE REALMENTE QUEREMOS MUDAR A POLÍTICA, POR QUE TANTAS VEZES NOS RECUSAMOS A MUDAR A FORMA COMO VOTAMOS?
Isabel Camargos: Uma jovem eleitora que ainda acredita na democracia, mas esperava muito mais da sua primeira eleição.

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