terça-feira, 20 de outubro de 2026

O povo grita contra a corrupção, mas nas urnas reelege os mesmos políticos: Quem está enganando quem?

 

Eleições de 2026 no Distrito Federal expõem contradição entre o discurso de mudança e a força das máquinas eleitorais, campanhas milionárias, influência religiosa e estruturas políticas que exigem investigação.


As eleições de 2026 deixaram uma pergunta incômoda para a população do Distrito Federal: onde foram parar os discursos contra a corrupção, os pedidos de renovação e a indignação diariamente manifestada nas redes sociais?


Durante dias, meses e anos, milhares de eleitores criticaram políticos, denunciaram privilégios, condenaram escândalos e exigiram mudanças. Entretanto, quando chegou o momento de transformar palavras em votos, as urnas demonstraram novamente a força dos mesmos grupos políticos frequentemente criticados pela sociedade.


A contradição é gritante: o povo reclama dos políticos, mas continua devolvendo o poder a muitos daqueles que representam as estruturas que tanto condena.


O escândalo envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) é um exemplo que merece reflexão. Dos 15 deputados distritais que aprovaram a operação de compra do Banco Master pelo BRB, 11 foram reeleitos e outro conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados, conforme levantamento divulgado após as eleições.


Isso não comprova que esses parlamentares tenham cometido crimes. Entretanto, diante de uma operação tão controversa, é legítimo questionar por que o apoio político à transação não provocou maior rejeição eleitoral.


O debate também alcança políticos citados em investigações, denúncias de crimes eleitorais e escândalos nacionais, como as fraudes no INSS. É indispensável distinguir investigados, acusados e condenados, mas também exigir transparência e responsabilidade.


CAMPANHAS DECLARAM POUCO, MAS EXIBEM ESTRUTURAS GIGANTESCAS


Outro aspecto que precisa ser investigado é a aparente incompatibilidade entre os valores oficialmente declarados por determinadas campanhas e a dimensão das estruturas eleitorais mobilizadas nas ruas.


Há relatos de candidatos eleitos com apoio de centenas de militantes, grandes equipes de propaganda, milhares de bandeiras, veículos, materiais publicitários e mobilização permanente em diferentes regiões do Distrito Federal.


Como uma campanha aparentemente tão cara pode apresentar gastos oficiais relativamente modestos? Quem financiou toda essa estrutura? O que foi pago, doado ou realizado voluntariamente? Tudo foi devidamente contabilizado?


Um exemplo que merece apuração envolve relatos sobre candidatura ligada ao meio evangélico, que teria contado com o apoio e empenho de aproximadamente mil igrejas, mais de 300 cabos eleitorais nas ruas e influência sobre centenas de cargos indicados na estrutura governamental.


Esses números precisam ser documentalmente confirmados. Entretanto, se corresponderem à realidade, justificam uma investigação sobre a origem dos recursos, a natureza do apoio recebido, a participação de agentes públicos e sua compatibilidade com as prestações de contas.


O apoio pessoal de religiosos e o trabalho voluntário são legítimos dentro da legislação. O que não pode ocorrer é a utilização irregular de instituições religiosas, recursos públicos ou estruturas administrativas para favorecer candidaturas.


Fé não pode ser transformada em instrumento de pressão eleitoral. Cargo público não pode funcionar como pagamento por apoio político. E a máquina do governo não pode servir de extensão de comitês de campanha.


A Justiça Eleitoral precisa verificar não apenas quanto os candidatos declararam gastar, mas também a origem, a natureza e a contabilização das estruturas efetivamente utilizadas.


A MÁQUINA PÚBLICA NÃO PODE TER DONO


Outro questionamento envolve a influência de parlamentares governistas sobre administrações regionais, secretarias e cargos comissionados.


É necessário investigar se essas estruturas foram utilizadas exclusivamente para atender à população ou se houve desvio de finalidade para favorecer campanhas de reeleição.


Não se pode considerar todo servidor comissionado um cabo eleitoral. Entretanto, também não se pode ignorar o risco de utilização de cargos, nomeações e dependência funcional como instrumentos de influência política.


Se comprovado, isso não representa apenas uma vantagem eleitoral: representa uma agressão à igualdade da disputa e à própria democracia.


Enquanto determinados candidatos contam com estruturas políticas consolidadas, outros, vindos das comunidades, enfrentam dificuldades para financiar até mesmo os materiais básicos de campanha.


São lideranças que dedicaram décadas à saúde, educação, regularização fundiária, infraestrutura e defesa dos moradores, mas não possuem milhões, grandes estruturas partidárias ou influência dentro do governo.


A democracia não pode se transformar em privilégio dos ricos, dos poderosos e daqueles que controlam estruturas políticas.


ONDE ESTAVA A FISCALIZAÇÃO?


Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: quem fiscalizou a dimensão real dessas campanhas?


A Justiça Eleitoral dispõe de mecanismos para verificar gastos, contratações, doações e possíveis abusos de poder econômico e político.


O Tribunal Superior Eleitoral estabelece limites para contratação de pessoal e regras de prestação de contas. Mas é preciso conferir se os valores declarados refletem corretamente as despesas, os serviços e os recursos efetivamente empregados.


Campanhas gigantescas não são automaticamente ilegais. O problema surge quando existem recursos omitidos, doações irregulares, abuso de poder ou utilização indevida da administração pública.


Não basta fiscalizar o candidato pequeno que distribui santinhos. É necessário investigar, com o mesmo rigor, aqueles que mobilizam estruturas gigantescas e conquistam milhares de votos.


O ELEITOR TAMBÉM PRECISA ASSUMIR SUA RESPONSABILIDADE


Não basta compartilhar denúncias, reclamar da corrupção e exigir renovação. É necessário conhecer a história dos candidatos, verificar suas propostas e acompanhar suas decisões.


O eleitor não é culpado pelos crimes eventualmente cometidos por seus representantes. Entretanto, suas escolhas ajudam a determinar quem continuará exercendo o poder.


Também é preciso reconhecer que nem todo político reeleito é corrupto, assim como nem todo candidato novo é honesto.


Corrupção não tem partido, ideologia, religião ou candidato de estimação.


A política não mudará enquanto a indignação for seletiva, enquanto os erros dos adversários forem condenados e os dos aliados forem justificados.


Depois das eleições, as bandeiras desaparecem, os cabos eleitorais deixam as ruas, as festas terminam e muitos candidatos só voltarão a procurar a população quando precisarem novamente de votos.


Quem realmente trabalha pela sociedade continua presente, independentemente de ocupar cargo público.


As eleições de 2026 deixaram uma lição: reclamar não é suficiente. A mudança exige consciência, informação, fiscalização e responsabilidade.


O povo tem o direito de votar em quem quiser, mas precisa compreender que suas escolhas também ajudam a construir a realidade política que depois critica.


E ficam duas perguntas que deveriam incomodar toda a sociedade:


SE O POVO DIZ QUE NÃO AGUENTA MAIS A CORRUPÇÃO E A VELHA POLÍTICA, POR QUE CONTINUA DEVOLVENDO O PODER A TANTOS DOS MESMOS REPRESENTANTES?


E SE AS CAMPANHAS DECLARARAM GASTOS MODESTOS, QUEM PAGOU PELAS ESTRUTURAS GIGANTESCAS QUE O ELEITOR VIU NAS RUAS?


Gilberto Camargos


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