Por Lúcio Big
Dizem que na política, como na cozinha, tudo depende do tempero. Em Vicente Pires, a receita mais recente parece ter seguido à risca aquele velho ditado: “se a vida te der um limão, faça uma limonada”. O problema é quando o limão já vem espremido, o copo já está servido — e o político aparece só para segurar o canudinho.
O caso do edital do trecho 2 é emblemático. Lançado, como bem apontou o deputado distrital Daniel de Castro, “no apagar das luzes”, o processo foi inicialmente tratado por ele como algo indigesto. Criticou, condenou, rejeitou. Disse ser contra. Foi além: cravou, com a segurança de quem parece falar com o futuro, que o edital seria cancelado.
Mas o futuro chegou — e não cancelou nada.
E eis que, num giro digno de contorcionismo político, o mesmo deputado surge sorridente ao lado da governadora, posando para fotos como se tivesse sido o grande responsável por uma conquista histórica para a região. O limão virou limonada. Ou melhor: virou suco de conveniência, daqueles feitos na hora, conforme o paladar eleitoral.
A pergunta que fica para nós, moradores, é simples: em que momento a crítica virou mérito?
Porque, sejamos francos, se o edital era ruim ontem, o que exatamente o tornou bom hoje? Foi o conteúdo? Ou foi a fotografia ao lado do poder?
Mas essa história não termina no deputado. Há um pano de fundo mais interessante — e talvez mais revelador.
O governador Ibaneis Rocha, que já não esconde de ninguém suas ambições políticas futuras, parece ter descoberto em obras e regularizações tardias uma espécie de atalho para o calendário eleitoral. Com possibilidades que vão desde uma candidatura ao Senado até voos mais altos no cenário nacional, a pressa em “resolver” problemas históricos ganha uma nova leitura: não é sobre resolver, é sobre mostrar que resolveu — ainda que no último minuto.
E o trecho 2 entra exatamente nessa equação.
Regularizar às pressas, lançar edital no fim do ciclo, criar fato político e distribuir protagonismo. É a velha estratégia de transformar obrigação em favor, planejamento em improviso e política pública em palanque.
Enquanto isso, nós, moradores, assistimos ao espetáculo.
Sabemos que Vicente Pires não nasceu ontem. Que os problemas são antigos. Que a infraestrutura não é uma novidade descoberta em ano pré-eleitoral. E sabemos, principalmente, que quando a solução chega “no apagar das luzes”, ela ilumina mais o cenário político do que as ruas da cidade.
No fim das contas, talvez o deputado tenha razão em uma coisa: é preciso saber fazer limonada.
Só esqueceram de avisar que o limão, neste caso, foi colhido às pressas, espremido por conveniência e servido como se fosse um banquete.
E nós? Bem, nós seguimos aqui, pagando caro e tentando entender se estamos diante de uma obra pública… ou de mais um ensaio de campanha.

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