A história recente de Vicente Pires talvez seja uma das mais emblemáticas demonstrações de como promessas grandiosas podem se transformar em frustração coletiva quando a execução pública falha em seus pilares mais básicos: planejamento, fiscalização e responsabilidade. O projeto que foi anunciado como a grande solução urbanística para a região tinha em caixa a quantia da ordem de R$ 508 milhões. Após uma primeira licitação fraudulenta, na segunda, os valores foram reduzidos para cerca de R$ 380 milhões, com projetos bem elaborados e um objetivo ambicioso e sedutor: transformar a cidade na mais bem estruturada de todo o Distrito Federal.
União de moradores e lideranças, planos e projetos prontos — no papel, praticamente irretocáveis. Tudo pronto: estudos, projetos e dinheiro em caixa. Dos R$ 508 milhões, licitou-se por R$ 380 milhões, ficando uma boa reserva. O projeto previa e licitava a construção de quatro pontes estratégicas, sendo duas ligando Vicente Pires à Colônia Agrícola Samambaia e duas conectando a região ao Jóquei Clube, além de dois viadutos na Via Estrutural, concebidos para melhorar a fluidez do trânsito e integrar melhor a cidade ao restante do DF. A proposta incluía ainda a duplicação de todas as vias principais, a implantação de calçadas acessíveis em toda a extensão urbana e, talvez o mais importante para uma região historicamente afetada por alagamentos, a execução de um sistema moderno de drenagem pluvial, com galerias amplas e bocas de lobo suficientes para suportar períodos intensos de chuva.
Tratava-se, portanto, não apenas de um pacote de promessas de obras, mas de uma real possibilidade de transformação estrutural definitiva. Executados os projetos existentes, oficialmente Vicente Pires deixaria de ser um problema histórico de infraestrutura para se tornar um modelo urbano dentro do Distrito Federal. No entanto, o que se observa hoje, após a aplicação dos recursos licitados, da reserva e de outros tantos que já ultrapassam a marca de R$ 700 milhões, é um cenário que caminhou na direção oposta.
As obras, em grande parte, apresentaram sinais precoces e evidentes de falhas técnicas. Pavimentações que deveriam durar décadas começaram a apresentar problemas em questão de dias. Os noticiários relatam vias que, poucos dias após concluídas, já demonstravam afundamentos, rachaduras e deformações incompatíveis com qualquer padrão mínimo de engenharia, abrindo grandes crateras que engolem tudo ao seu redor. As calçadas, projetadas e licitadas para serem acessíveis, simplesmente não cumprem sua função básica, sendo irregulares, mal executadas e, em diversos pontos, inexistentes ou intransitáveis para pessoas com mobilidade reduzida, isso sem falar que apresentaram rachaduras imediatamente após a conclusão.
O sistema de drenagem, que deveria ser o grande diferencial da obra, também se revela insuficiente e mal executado. Em vez de resolver o histórico problema de alagamentos, a cidade continua vulnerável e, em alguns pontos, a situação parece ter se agravado. A cada período chuvoso, surgem novos pontos críticos, e o que mais chama atenção é a frequência com que crateras se abrem nas vias. Buracos de grandes proporções surgem de forma repentina, representando risco real e imediato à população. Não se trata apenas de transtorno urbano, mas de perigo concreto: veículos podem ser engolidos, acidentes graves podem ocorrer e vidas estão potencialmente em risco. O fato de ainda não ter ocorrido uma tragédia maior é, até o momento, atribuído mais à sorte do que à segurança proporcionada pelas obras.
Esse cenário levanta questionamentos inevitáveis sobre a qualidade da execução, a fiscalização dos contratos e a responsabilidade dos gestores públicos. A discrepância entre o valor investido e o resultado entregue não pode ser ignorada. Quando uma obra consome mais de R$ 700 milhões e produz um ambiente urbano instável, a discussão deixa de ser técnica e passa a ser institucional.
No centro dessa realidade está a condução política do processo. A gestão de Ibaneis Rocha e de sua vice, Celina Leão, é apontada por críticos como responsável por permitir que a cidade fosse tratada não como prioridade administrativa, mas como ativo político. A percepção crescente entre moradores é de que Vicente Pires foi vista como um reduto eleitoral estratégico, mas não como um espaço que exigia intervenção técnica séria e contínua.
Desde que a vice-governadora passou a ter maior protagonismo político na região, a crítica recorrente é de que a administração local perdeu capacidade de ação efetiva e se limitou a uma atuação superficial. Em vez de acompanhar as obras já licitadas e em execução, solicitando ao órgão responsável a fiscalização rigorosa, a cobrança de garantias contratuais e a responsabilização de empresas por falhas evidentes, o que se viu foi uma gestão permissiva, que tolerou a má execução sem reação proporcional e ainda deu total apoio, divulgando nas redes sociais obras de péssima qualidade como se fossem maravilhosas. Empresas responsáveis por serviços de baixa qualidade não foram devidamente expostas, penalizadas ou obrigadas a corrigir, dentro dos parâmetros legais, os problemas apresentados.
A administração regional, por sua vez, é frequentemente apontada como ineficaz. Ao longo dos últimos anos, principalmente na gestão Ibaneis, sucessivas administrações passaram pelo comando local sem apresentar soluções concretas. A crítica predominante é de que o órgão se transformou em espaço de indicações políticas, com baixa capacidade técnica e praticamente nenhuma atuação prática. Em vez de exercer o papel de fiscalização e interlocução com a população, limitou-se à produção de conteúdo promocional que não corresponde à realidade vivida nas ruas.
Enquanto isso, a narrativa oficial e de supostas lideranças insistem em apresentar a cidade como exemplo de sucesso, criando um contraste cada vez mais evidente entre o discurso institucional e a experiência cotidiana dos moradores. A ausência física e política das principais lideranças do governo na região também é frequentemente mencionada. Há uma percepção consolidada de abandono: de que, após o período eleitoral e o anúncio das obras, a cidade deixou de ser acompanhada de perto por aqueles que deveriam responder por sua execução.
O caso de Vicente Pires, portanto, transcende a discussão local. Ele se torna um retrato mais amplo de falhas estruturais na gestão pública, onde grandes investimentos não necessariamente se traduzem em resultados efetivos e onde a ausência de fiscalização rigorosa compromete não apenas a qualidade das obras, mas a segurança da população.
Ao final, o que se impõe é uma constatação incômoda: uma das maiores intervenções urbanas do Distrito Federal, que tinha potencial para se tornar referência, caminha para ser lembrada como um exemplo de desperdício de recursos, má execução e descaso administrativo. E, enquanto crateras continuam se abrindo e obras recém-entregues se deterioram, permanece no ar uma pergunta inevitável: até quando a sorte continuará evitando que esse cenário de risco se transforme em tragédia?
Gilberto Camargos


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